SAÚDE RENAL: O INIMIGO SILENCIOSO QUE PODE ESTAR DENTRO DE VOCÊ

SAÚDE RENAL: O INIMIGO SILENCIOSO QUE PODE ESTAR DENTRO DE VOCÊ

Roger Campos
28 de setembro de 2026

Conexão Três Pontas entrevista a nefrologista Dra. Carla Cristina Bernardi e revela o que todos precisam saber sobre rins, doença renal, diálise, transplante e prevenção

TRÊS PONTAS — Eles trabalham 24 horas por dia, filtram o sangue, ajudam a controlar a pressão arterial, equilibram líquidos e sais minerais e participam da produção de hormônios fundamentais para o organismo. E, mesmo assim, os rins costumam ser lembrados somente quando alguma coisa começa a dar errado. O problema é que, muitas vezes, quando os sintomas aparecem, a doença renal já avançou.

Dados recentes apontam que a Doença Renal Crônica (DRC) atinge mais de 20 milhões de brasileiros, aproximadamente 10% da população. Mais de 170 mil pessoas dependiam de terapia renal substitutiva, segundo dados do Censo Brasileiro de Diálise 2024 citados pela Agência Brasil. Um estudo divulgado em agosto de 2026 também chama atenção para o subdiagnóstico da doença no país.

E o cenário exige atenção. Em setembro de 2026, o Ministério da Saúde anunciou novas medidas para ampliar o diagnóstico e o acompanhamento da DRC. Entre janeiro de 2025 e agosto de 2026, foram habilitados 62 novos serviços, sendo 25 para hemodiálise, quatro para diálise peritoneal e 33 para acompanhamento de pacientes antes da necessidade de diálise.

Para entender esse universo — e, principalmente, para explicar de maneira clara o que cada pessoa pode fazer para proteger os próprios rins — o Conexão Três Pontas conversou com a Dra. Carla Cristina Bernardi, médica nefrologista que atende em Três Pontas.

Em uma entrevista direta e acessível, ela fala sobre prevenção, água, alimentação, medicamentos, pedras nos rins, hemodiálise, transplante e exames que podem detectar alterações antes que elas se transformem em um problema grave.

CONEXÃO TRÊS PONTAS — DRA. CARLA BERNARDI

1. Os rins são considerados verdadeiros “filtros” do organismo. Afinal, quais são todas as funções desempenhadas por esses órgãos e por que eles são tão importantes para a nossa sobrevivência?

Dra. Carla Bernardi:

“As funções desempenhadas pelos rins são remover toxinas do sangue, controlar a pressão arterial e o volume de líquidos no corpo, regular o pH do sangue e produzir alguns hormônios que participam da produção de glóbulos vermelhos e da manutenção de ossos saudáveis.”

Ou seja: os rins estão muito além da simples produção de urina. Eles participam diretamente do equilíbrio químico do organismo e de mecanismos fundamentais para a manutenção da vida.

2. A doença renal costuma ser chamada de “inimiga silenciosa”. Por quê? Quais são os primeiros sinais de alerta?

Dra. Carla Bernardi:

“Ela recebe este nome porque, mesmo em franca atividade, não demonstra sinais ou sintomas. Devemos ficar atentos a fraqueza, edema — inchaço nas pernas ou nos olhos ao acordar —, alterações na urina, como presença de sangue ou espuma, boca amarga e descontrole da pressão arterial.”

O Ministério da Saúde reforça que a DRC frequentemente evolui sem sintomas e pode ser descoberta tardiamente.

E aqui está um dos maiores perigos: sentir-se bem não significa necessariamente que os rins estejam funcionando bem.

3. Milhões de brasileiros convivem com algum grau de doença renal sem saber. Quais são os principais fatores de risco?

Dra. Carla Bernardi:

“Os principais fatores de risco são histórico familiar de doença renal, hipertensão arterial e diabetes mellitus. No Brasil, a principal causa é a hipertensão arterial. Outros fatores incluem cálculo renal, infecção urinária de repetição, obesidade e doenças genéticas.”

O Ministério da Saúde também destaca hipertensão, diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e tabagismo entre os principais fatores associados à prevenção e progressão da doença renal crônica.

4. Existe uma quantidade ideal de água que devemos ingerir diariamente? Beber água demais também pode fazer mal?

Dra. Carla Bernardi:

“Sim, a quantidade é variável e esta indicação de volume diário deve ser sempre individualizada. Sugerimos, por exemplo, em situações de cálculo renal, o aumento da ingestão hídrica. Agora, em contexto de pacientes com comorbidades cardíacas e renais prévias, a ingestão deve ser reduzida.”

Portanto, aquela velha ideia de que “quanto mais água, melhor” não serve para todo mundo.

A necessidade de líquidos deve considerar as condições clínicas individuais. Pessoas com doenças cardíacas ou renais podem ter orientações diferentes da população saudável.

5. O uso frequente de anti-inflamatórios, analgésicos e a automedicação podem comprometer os rins?

Dra. Carla Bernardi:

“Sim, o uso excessivo e crônico de algumas medicações pode comprometer o funcionamento renal. Em destaque temos a classe dos anti-inflamatórios não hormonais, rotineiramente prescritos para tratamento de dor aguda ou crônica.”

O próprio Ministério da Saúde recomenda cautela com o uso crônico de medicamentos e destaca a necessidade de orientação médica para substâncias com efeito potencialmente nefrotóxico.

Dor não deve ser tratada automaticamente com remédio. E remédio não é sinônimo de segurança só porque pode ser comprado facilmente.

6. Pedra nos rins é um problema cada vez mais comum. O que explica esse crescimento? Como prevenir?

Dra. Carla Bernardi:

“O aumento de casos de cálculo renal está diretamente ligado ao estilo de vida e tipo de alimentação da população. Dieta rica em sódio, alimentos ultraprocessados, excesso de proteínas animais e baixo consumo de água são importantes fatores de risco.

A melhor prevenção é ter uma alimentação saudável, rica em frutas e verduras, e uma ingestão hídrica adequada.”

É uma orientação que dialoga diretamente com um dos grandes desafios da saúde contemporânea: hábitos cotidianos que parecem inofensivos, mas que, acumulados durante anos, podem cobrar uma conta pesada do organismo.

HEMODIÁLISE: QUANDO OS RINS JÁ NÃO CONSEGUEM DAR CONTA

7. Quando um paciente precisa fazer hemodiálise? É definitivo? Como é a rotina?

Dra. Carla Bernardi:

“Um paciente precisa iniciar tratamento dialítico quando seus rins perdem cerca de 85% a 90% da capacidade de filtrar o sangue, estágio 5 da doença renal crônica. Neste contexto de doença crônica, o tratamento é contínuo e por tempo indeterminado.

Em situações onde os rins são prejudicados funcionalmente de forma aguda, por outras disfunções orgânicas ou infecções, por exemplo, o quadro de insuficiência renal aguda pode ser reversível, e o tratamento dialítico pode não ser mais necessário.

O paciente usualmente em tratamento dialítico crônico realiza as sessões três vezes na semana por cerca de quatro horas.”

No SUS, a hemodiálise normalmente é realizada três vezes por semana; existe também a diálise peritoneal, que pode ser realizada diariamente em casa.

O número de brasileiros submetidos à terapia renal substitutiva vem aumentando. Dados divulgados em 2026 apontam mais de 170 mil pessoas nessa condição.

TRANSPLANTE: UMA NOVA CHANCE DE VIDA

8. Quem pode receber um rim? Como funciona a fila de transplantes no Brasil?

Dra. Carla Bernardi:

“Pacientes portadores de doença renal crônica em estágio avançado, em tratamento conservador ou que estão em hemodiálise são candidatos ao transplante renal, desde que passem por uma avaliação médica rigorosa e criteriosa, a fim de garantir condições clínicas adequadas para realização da cirurgia e do uso de medicação imunossupressora.

A fila de transplante renal de doador falecido no Brasil não funciona por ordem numérica, mas sim por compatibilidade genética e sanguínea e segundo outras situações pontuais em que o paciente tenha urgência para receber o órgão devido a quadro clínico grave.”

O Ministério da Saúde confirma que a seleção considera critérios como compatibilidade e condições clínicas, e existem situações de extrema gravidade que podem gerar prioridade.

E o tamanho do desafio impressiona: em 2026, cerca de 45 mil pessoas aguardavam por um transplante renal no Brasil. Em 2025, foram realizadas 6.697 cirurgias de transplante renal, segundo dados divulgados naquele ano.

O rim pode ser doado em vida ou após a morte, e uma pessoa saudável pode viver adequadamente com apenas um rim.

E O CÂNCER DE RIM?

A saúde renal também precisa ser discutida quando o assunto é câncer.

Um levantamento publicado noBrazilian Journal of Nephrology, utilizando dados do DATASUS, identificou 28.414 casos de neoplasia maligna do rim entre 2013 e 2023, sendo 16.494 em homens e 11.920 em mulheres. O maior número de diagnósticos ocorreu no Sudeste.

O câncer renal não deve ser confundido com doença renal crônica: são problemas diferentes, embora ambos envolvam os rins e exijam atenção médica.

Segundo manual oncológico do A.C.Camargo, são registrados no Brasil mais de 6 mil novos casos de câncer de rim por ano, sendo o carcinoma de células renais responsável por cerca de 90% dos casos.

9. Quais exames simples podem identificar precocemente uma doença renal?

Dra. Carla Bernardi:

“Os exames simples e acessíveis são creatinina, ureia e urina tipo 1. Recomendamos que esta avaliação seja feita por uma pessoa hígida anualmente.”

A avaliação da creatinina e da Taxa de Filtração Glomerular (TFG) está entre as principais ferramentas para avaliar a função renal.

Para pessoas com fatores de risco — especialmente hipertensão e diabetes — a avaliação pode ser ainda mais importante e deve ser individualizada pelo médico.

10. Se você pudesse deixar apenas uma mensagem para conscientizar a população sobre a saúde dos rins, qual seria?

Dra. Carla Bernardi:

“Minha mensagem é: beber água regularmente e em quantidade adequada, ter uma alimentação o mais saudável possível, evitando excesso de sal e ultraprocessados; não utilizar medicações sem orientação e acompanhamento médico; realizar atividade física com constância, evitando o sedentarismo; não fumar; manter glicemia e pressão arterial controladas e, por último, em seu check-up anual, avaliar sua função renal com exames de sangue e urina.”

UM ALERTA QUE NÃO DEVE SER IGNORADO

A doença renal não começa necessariamente quando alguém chega à hemodiálise.

Ela pode começar muito antes — enquanto a pessoa trabalha, dirige, cuida dos filhos, pratica esportes e acredita que está tudo bem.

É justamente por isso que a prevenção é tão importante.

O Brasil já convive com mais de 20 milhões de pessoas afetadas pela doença renal crônica, enquanto o número de pacientes dependentes de terapia renal substitutiva ultrapassa 170 mil.

E existe uma mensagem ainda mais importante por trás desses números: muitos problemas renais podem ser identificados antes de chegar aos estágios mais graves.

Em setembro de 2026, o próprio Ministério da Saúde reforçou essa estratégia ao ampliar o cuidado integrado para pacientes renais, buscando diagnóstico e tratamento mais precoces e a redução da progressão da doença.

CONEXÃO TRÊS PONTAS

Informação também é prevenção.

A entrevista com a Dra. Carla Cristina Bernardi mostra que cuidar dos rins não exige fórmulas milagrosas. Exige atenção, hábitos saudáveis, controle da pressão e da glicemia, atividade física, alimentação equilibrada, cuidado com medicamentos e, principalmente, acompanhamento médico e exames periódicos.

Porque existe uma pergunta que vale a pena fazer antes que seja tarde:

VOCÊ SABE COMO ESTÃO OS SEUS RINS?

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Roger Campos

Jornalista / Editor Chefe

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